Na última quarta-feira, a atmosfera intimista da Casa de Francisca, no coração de São Paulo, converteu-se no templo de uma das maiores poetas do nosso tempo. Alice Ruiz — cuja escrita transita, com igual maestria, entre o rigor do haikai e a fluidez visceral da canção popular — foi coroada com o Troféu Tradições UBC 2026. Em uma noite desenhada para celebrar a imensidão de seu legado como letrista, tradutora e compositora, a artista recebeu a láurea das mãos de Wilson Simoninha e das diretoras da União Brasileira de Compositores, Tulipa Ruiz e Fernanda Takai.
A celebração ganhou pulso e melodia em um pocket show de rara sensibilidade, magistralmente dirigido por Gustavo Ruiz Chagas. No palco, a obra de Alice ecoou na voz de intérpretes capitais da nossa cena: Catto deu contornos pungentes a “Avesso”, Xênia França incendiou o espaço com “Milágrimas”, e Tulipa Ruiz celebrou a delicadeza de “Se Tudo Pode Acontecer”. Passaram-se ainda pela atmosfera da noite Fioti com “Sei dos Caminhos”, Fernanda Takai interpretando “Ladainha”, Ava Rocha com a força de “Socorro”, além de Téo Ruiz, Rogéria Holtz, Luiza Villa e Chico Bernardes, amparados pelo trio instrumental formado por Gabriel Basile, Sidiel Gomes e Chicão Montorfano.
Ao erguer o troféu — que em edições anteriores reverenciou pilares como Anastácia, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alaíde Costa e Rosa Passos —, Alice quebrou a solenidade com o humor cortante e a lucidez que lhe são peculiares. Dividiu o brilho do momento com seus parceiros de composição, definindo a parceria como uma cumplicidade de intimidade rara — “melhor que isso só sexo” —, e direcionou sua reverência aos intérpretes que dotam seus versos de cores e luzes imprevistas.
Em suas palavras finais, ecoou a verdade incômoda e poética de quem sempre operou nos bastidores da criação: a alegria indizível de ser resgatada da invisibilidade histórica reservada aos letristas. Aquela noite em São Paulo não apenas registrou um tributo; corrigiu, com arte e afeto, o lugar de uma das mentes mais brilhantes da cultura brasileira.


